28 de janeiro de 2026
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Por ocasião dos meus 18 anos…de Padre, por Pe. Eutrópio Aécio de Carvalho Souza

Por Pe. Eutrópio Aécio de Carvalho Souza

Ao completar 18 anos de ministério presbiteral, retomo um trecho da recente Carta Apostólica “Uma fidelidade que gera futuro” do Papa Leão XIV no contexto das comemorações de dois documentos do Concílio Vaticano II, os Decretos Optatam Totius (sobre a formação sacerdotal) e Presbyterorum Ordinis (sobre a vida e a missão dos sacerdotes). A Carta é datada de 08 de dezembro de 2025 e foi publicada, alguns dias depois, em 22 de dezembro.

Diz o Papa Leão: “O  Concílio Vaticano II situou o serviço específico dos presbíteros no âmbito da igual dignidade e fraternidade de todos os batizados, como bem testemunha o Decreto Presbyterorum Ordinis: «Os sacerdotes do Novo Testamento, em virtude do sacramento da Ordem, exerçam no Povo e para o Povo de Deus o múnus de pais e mestres, contudo, juntamente com os fiéis, são discípulos do Senhor, feitos participantes do seu reino pela graça de Deus que nos chama, regenerados com todos na fonte do Batismo, os presbíteros são irmãos entre os irmãos, membros dum só e mesmo corpo de Cristo cuja edificação a todos pertence».”

Retomo as belas intuições do Concílio Vaticano II nesse aniversário da minha ordenação, pois acredito que, na Tradição vida da Igreja, não posso como presbítero desmerecer a renovação conciliar, fruto do Espírito Santo que sempre impulsiona a Igreja no movimento de escuta fiel do Senhor Jesus e de resposta aos sinais dos tempos. Como padre formado na “escola do Concílio”, reconheço o meu ministério como importante, mas dentro de uma teologia do Povo de Deus conforme o ensinamento conciliar. Reconheço como fiz há 18 anos, no meu convite de ordenação, que fui primeiro chamado “a ser do povo de Deus” (pelo Batismo, graça principal e dignidade de todo fiel) e, depois, fui chamado “a ser ministro do Povo de Deus” (pelo sacramento da Ordem, que não é privilégio ou status, mas serviço e configuração ao Cristo Pastor e Cabeça do seu povo, a Igreja).

Peço, assim, que nunca me esqueça de que devo continuar meu caminho como discípulo do Senhor. É também o Papa Leão que recorda na Carta Apostólica já referida acima: “[…]todos os presbíteros são chamados a sempre cuidar da sua formação, para manter vivo o dom de Deus recebido com o sacramento da Ordem (cf. 2 Tm 1, 6). A fidelidade ao chamamento não é, pois, imobilismo ou fechamento, mas um caminho de conversão quotidiana que confirma e amadurece a vocação recebida. […] antes mesmo de se dedicar à condução do rebanho, cada pastor deve recordar constantemente que ele próprio é discípulo do Mestre, na companhia dos seus irmãos e irmãs, porque «ao longo de toda a vida somos sempre “discípulos”, com o constante anseio de nos configurarmos a Cristo».  Apenas esta relação de obediente seguimento e fiel discipulado pode manter a mente e o coração na direção certa, apesar das perturbações que a vida reserva.”

Agradeço ao Senhor Deus que tem me conduzido com seu amor, graça e misericórdia, em meio às minhas fraquezas, incoerências, medos e dúvidas. Agradeço à Igreja, na pessoa do meu bispo diocesano, Dom Carvalho, do qual sou colaborador – e isso não posso esquecer – nos meus irmãos do presbitério diocesano de Caetité, com os quais sou chamado a viver a fraternidade presbiteral, pois não existe padre sozinho ou isolado. O ministério presbiteral pede a comunhão de um presbitério, como sinal coerente e profético em nosso tempo de individualismos e personalismos…

Agradeço aos inúmeros e queridos irmãos e irmãs leigos(as) que me acolhem, demonstram seu amor, cuidado de muitas maneiras. Graças do bom Deus, nunca faltaram nesses 18 anos o rosto alegre, o coração afetuoso, o abraço amigo e o diálogo curativo para mim, vindo de tantos leigos e leigas, homens, mulheres, casais, jovens, crianças e idosos… Deus consolou-me muitas vezes por meio desses que caminharam comigo em tantos lugares de missão por onde estive… Macaúbas, Jacaraci, Licínio de Almeida, Brumado, Guanambi e, agora mais proximamente, Belo Horizonte-MG. Também não posso esquecer da minha paróquia de origem, Caetité, onde ainda que de férias, estou também em missão junto ao povo de Deus…

E, no momento atual em que me foi entregue a missão de acompanhar, ajudar a discernir, incentivar e orientar jovens que sentem o chamado para o ministério presbiteral e estão na etapa da Configuração no Processo Formativo (Comunidade de Formação Nossa Senhora de Guadalupe, em Belo Horizonte-MG), peço ao Senhor que me ajude para que as novas gerações sintam sempre mais a beleza de seguir e de servir o Bom Pastor na sua missão de conduzir o rebanho nos caminhos da história para os prados da vida eterna…

Voltando ao texto da Carta Apostólica oferecida a nós pelo Papa Leão, encontramos: “Diariamente, é como se o sacerdote regressasse ao lago da Galileia – onde Jesus perguntou Pedro «Amas-me?» (Jo 21, 15) – para renovar o seu “sim”. Tal citação é-me muito afetiva, pois faz-me recordar do lema que escolhi para o meu ministério: “Senhor, tu sabes tudo; sabes que te amo” (Jo 21,17) que é a última resposta de Pedro, depois da três indagações que o Senhor Jesus Ressuscitado o fizera, entregando-lhe, a cada resposta, a missão de “cuidar/apascentar as suas ovelhas e cordeiros!” Peço ao Senhor que continue me indagando, para que eu não esqueça do amoris officium (“serviço de amor”, como assinala Santo Agostinho)que é o ministério presbiteral, o qual recebi pela imposição das mãos e Oração da Igreja há 18 anos atrás. E peço, meu irmão e minha irmã, que reze por esse irmão a quem o Senhor, por pura graça e misericórdia, quis chamar e enviar como presbítero em favor do seu povo. Que eu nunca esqueça de que sou amado e que devo amar, ó Senhor Jesus! Amém!

A foto é da pia batismal da Catedr0al Senhora Sant’Ana de Caetité-BA. Depois da missa que presidi nesta terça-feira, 27/01, quis ir até lá, tocar na pia onde fui batizado quando tinha 10 meses de idade (08/02/1975). Rezei e agradeci ao Senhor! O Batismo foi por mim muito recordado, quando fui ordenado. No convite havia uma foto desse momento que considero o início da eleição gratuita e amorosa da parte do Senhor, a fonte de todas as vocações, nossa dignidade maior e comum a todos os cristãos! O que o Concílio nos recordou bem com a teologia do Povo de Deus!